AUTONOMIA DA MULHER NA MÚSICA “TODAS ELAS” DE ROUPA NOVA

 

DiaDaMulher2

UNIVERSIDADE FEDERAL DA PARAÍBA

MANOEL MESSIAS DA SILVA

 Resumo

 

Na letra da música “todas Elas” da banda Roupa Nova veremos que a autonomia da mulher é o principal passo para se chegar à igualdade de gênero, e as estrofes cantadas difundirá justamente esta compreensão, porém essa construção sofre muita dificuldade na história da mulher. O presente artigo mostrará o quanto estamos perto da igualdade de gênero pela música e o quanto nos distanciamos pela prática.

Palavra-Chave: Igualdade de gênero- autonomia – Mulher- Música

 

 

Todas Elas

  1. Mulheres querem te dirigir
    Mulheres sabem decidir
    Mulheres querem ter muito mais
    Mulheres são a mãe de todos nós
    Mulheres são legais

 

  1. Mulheres podem te provocar
    Mulheres sabem ser fatais
    Mulheres roubam teu coração
    Mulheres vão da brisa a temporais
    Mulheres são demais

 

  1. Doce adolescência da inocência sem pudor
    Querem o mundo, não sabem esperar
    Têm a pressa de saber o que é o amor
    Alguém, uma vida.

Todas elas são tão iguais
Todas têm seus desejos

 

  1. Mulheres pregam a comunhão
    Mulheres querem se separar
    Mulheres lindas na gravidez
    Mulheres que só pensam em gastar

 

  1. Pelos trinta anos elas sabem onde pisar
    Suas cabeças já estão no lugar
    Dão um jeito de fazer acontecer
    E têm esperança

 

  1. Depois que os anos passam
    Marcas na face mostram alegrias e tristezas
    Não tem volta, só lembranças.

Vale a pena ontem, hoje e amanhã
Enfim, são mulheres.

INTRODUÇÃO

A letra da música “todas elas” da banda Roupa Nova retrata confiantemente a autonomia e o papel da mulher na vida de cada um de nós, os seus ensinamentos, suas atitudes, disponibilidade e confiança na ótica musical, mas do ponto de vista social atual surgem questionamentos sobre a igualdade de gênero dessas mulheres, questionamentos que deu partida neste artigo. O objetivo é refletir a autonomia da mulher na perspectiva da igualdade de gênero pela ótica da letra musical refazendo um apanhando histórico geral das mulheres do mundo e do Brasil.

O nosso entendimento sobre igualdade de gênero desdenha de forma insensível, por exemplo, a mulher ao ser mãe é colocando sempre à margem (ou, ao menos, vendo com muita indiferença) aquelas que não projetam ter filhas (os) em detrimento de um projeto. Nesse caso a sociedade parecer tratar a questão da maternidade como única condição que a mulher tem, entre tantas coisas percebe-se a desigualdade. A música nos ajudará a compreender a igualdade de gênero e as estrofes fazem alusão à história da mulher no processo dessa compreensão.

Cada estrofe com seus posicionamentos: um que remete ao passado mostrando as batalhas travadas na busca da autonomia da mulher e o outro posicionamento, as conquistas realizadas ambos os posicionamentos rumo à igualdade de gênero. Quem nunca ouviu a música ao menos verá a letra aqui detalhada, porém com outro fim, direcionamento voltado mais para o entendimento da igualdade de gênero. A perspectiva do trabalho é frisar a igualdade de gênero, e tentar igualar os adjetivos na letra da música com a realidade que hoje se enfrenta, considerando a dificuldade. A partir desta letra compartilharemos ideias, conquistas, combates, riscos e objetivos traçados por todas as mulheres em pró da igualdade.

Desenvolvimento

Desde as sociedades mais antigas, o gênero feminino sempre foi marginalizado e até mesmo tratado como aberração ou como um gênero que nunca se completou e só encontrava abertura nos versos poéticos, por isso é tão necessário entender o quanto é importante à autonomia da mulher para uma igualdade de gênero. A letra da música é apenas um passo impulsionador, mas o pano de fundo é a busca pela autonomia. A nossa sociedade só será integrada junto a todas elas nessa conquista.

Escrever sobre a mulher significa apresentar fatos pertinentes, ideias, perspectivas para todos que buscam fazer uma reflexão do gênero integrado. Trata-se de igualar através das tensões e contradições que se estabelecem em diferentes épocas, momentos e sociedades as vicissitudes do gênero feminino. Desvendar as relações entre a mulher e a sociedade, procurando mostrar o ser social que é adquirido por ela. No entanto a nossa pesquisa será descritiva por parte histórica e a dinâmica das estrofes da música atingindo principalmente o âmbito da sexualidade.

Estamos no período colonial, aqui a mulher é rotulada como propriedade (tal como os escravos). Sendo objeto do marido, que visa uma boa dona-de-casa, dando bons filhos e mãe, sendo-lhe insento o conhecimento e cultura, para não haver contestação nenhuma de submissão imposta por ele. A pobreza familiar e o baixo nível de instrução masculina predizem os maus tratos físicos à mulher e entre os fatores associados ao risco de violência doméstica contra a mulher incluem-se os baixos salários e as pressões econômicas. Nesse período a limitação da autonomia reflete claramente que a desigualdade de gênero é nítida e objetiva, não há destaques femininos e nem se sabe de alguma ascensão individual.

Estamos na Revolução Francesa, em 1789, o papel da mulher na sociedade está subido os degraus da conquista. Os passos dados são ainda lentos e marcados pela opressão e limitação dos direitos da participação feminina em muitos lugares.  Aos poucos surgem movimentos pela melhoria das condições de vida, trabalho, a participação política, o fim da prostituição, o acesso à instrução e a igualdade de direitos entre os sexos.

Quando se canta: “Mulheres querem ter muito mais”, na perspectiva da sociedade deve-se a desigualdade de gênero que ainda se mostra preponderante na história e as conquistas são por vezes desiguais. Mesmo que a letra da música esteja cheia de adjetivos voltados apenas para as mulheres, como forma de motivar e apresentar a essência deste gênero, não exclui em nada a participação dos homens como colaboradores dessa igualdade.  Devemos ser colaboradores na igualdade de gênero, toso dos homens e mulheres junto a sociedade.

  1. Mulheres querem te dirigir
    Mulheres sabem decidir
    Mulheres querem ter muito mais

A partir da estrofe acima se percebe a fugacidade pelas conquistas embora que promulgada lentamente. O trecho faz referência direta às vitórias atualmente, porém não esquecendo na linha do tempo os pedregulhos enfrentados. Isso mostra que a igualdade de gênero não é um tema meramente temático, mas uma realidade perto de nós, que perpassa o tempo passado, presente e futuro. Com a Revolução Industrial a assimilação do trabalho feminino pelas indústrias, como forma de baratear os salários, a mulher passa a ser inserida categoricamente na produção. A submissão ainda imposta coagia o cumprimento de jornadas de até 17 horas de trabalho em condições desumanas e contidas a humilhações, tendo acesso a salários até 60% menores que os dos homens.

O que a história nos mostra é o perfil de trabalhadoras assalariadas cada vez mais alienadas e abusadas, trazendo à tona uma profunda questão existencial, uma vez que o trabalho perde sua característica de atividade fundamental, objetiva e humanizadora, cujos resultados retornariam diretamente em benefício do indivíduo que trabalha.

Estamos nas grandes conquistas da história do Brasil, referente ao gênero feminino, o direito de votar, pois até 1932 era prerrogativa apenas dos homens. Injustiça, pois a sociedade não é feita de homens apenas. Porém, como símbolo desta conquista destaca-se Carlota Queiroz, a primeira Parlamentar eleita em 1935. Outra vitória deu-se com a criação da lei do divórcio, liberdade para um novo tempo. Começando a liberdade para reescreverem sua história, como senhoras de seus destinos.

Estamos em 1857, quando as proletariadas têxteis de uma fábrica de Nova Iorque entram em greve, ocupando a fábrica, e reivindicam a redução de um horário de mais de 16 horas por dia para 10 horas. Estas operárias que recebem menos de um terço do salário dos homens estão se matando. Ocorre que muitas dessas operárias são fechadas na fábrica onde, entretanto, se declarara um incêndio, e cerca de 130 mulheres morrem queimadas. Em 1910, numa conferência internacional de mulheres realizada na Dinamarca, foi decidido, em homenagem àquelas mulheres, comemorar o 8 de Março como “Dia Internacional da Mulher”.  Dia dedicado especialmente a toda mulher que luta por sua autonomia.

Estamos na década de setenta e aqui se constitui um marco para o movimento dessas batalhadoras no Brasil, com suas vertentes de movimento feminista, grupos de mulheres pela redemocratização do país e pela melhoria nas condições de vida e de trabalho da população brasileira. Em 1975, comemora-se, em todo o planeta, o Ano Internacional da Mulher e realiza-se a I Conferência Mundial da Mulher, promovida pela Organização das Nações Unidas – ONU, instituindo-se a Década da Mulher.

Estamos nos anos noventa, aqui se amplia o movimento social de mulheres e surgem inúmeras organizações não governamentais (ONGs). Além de uma diversidade e pluralidade de projetos, estratégias, temáticas e formas organizacionais, profissionalização/especialização dessas ONGs. Novas formas de estruturação e de mobilização, embasadas na criação de redes/ articulações setoriais, regionais e nacionais, a exemplo da Articulação de Mulheres Brasileiras – AMB, da Rede Nacional Feminista de Saúde e Direitos Reprodutivos – Rede Saúde e de articulações de trabalhadoras rurais e urbanas, pesquisadoras, religiosas, negras, lésbicas, entre outras.

Em fins dos anos setenta em diante, o movimento se amplia e se diversifica, adentrando partidos políticos, sindicatos e associações comunitárias. Com a acumulação das discussões e das lutas, o Estado Brasileiro e o governo federal e estadual reconhecem a especificidade da condição feminina, acolhendo propostas do movimento na Constituição Federal e na elaboração de políticas públicas voltadas para o enfrentamento e superação das privações, discriminações e opressões vivenciadas pelas mulheres.

Campanhas como “Mulheres Sem Medo do Poder”, visando acicatar e apoiar a participação política das mulheres nas eleições municipais de 1996; “Pela Vida das Mulheres”, visando manter o direito ao aborto nos casos previstos no Código Penal Brasileiro (risco de vida da mãe e gravidez resultante de estupro); “Pela Regulamentação do Atendimento dos Casos de Aborto Previstos em Lei, na Rede Pública de Saúde”; e “Direitos Humanos das Mulheres”, por ocasião da comemoração dos 50 anos da assinatura da Declaração Universal dos Direitos Humanos, visando incorporara história das mulheres.

O movimento, também na década 90, aprofunda a interlocução com o Legislativo e o Executivo – e, em menor medida, com o Judiciário -, tanto no sentido da regulamentação de dispositivos constitucionais, quanto no sentido da implementação de políticas públicas que levem em conta a situação das mulheres e perspectiva de eqüidade nas relações de gênero.

Depois de muito esforço a busca feminista em meio ao árido de perspectivas se alcança a Legislatura 95 – 99 que consolida a inclusão da temática dos direitos das mulheres e da equidade nas relações de gênero na pauta do Congresso Nacional, supostamente de forma não privilegiada. A reivindicação dessa inclusão, desencadeada pelas organizações do movimento de mulheres, passa a gerar forças em alguns âmbitos.

A mulher enfrenta muitas dificuldades no ingresso ao mercado de trabalho, uma vez que, além da qualificação técnica, ainda exigem beleza (transcrita nos anúncios de emprego como? Boa aparência?). Apesar de todos esses problemas enfrentados pelas mulheres, estamos passando por uma revolução silenciosa, que pode ser vista nas faculdades, nas áreas de pesquisa, de trabalhos, agências concursos. Em todos os cursos de graduação, especialização, doutorado e pós-doutorado, preponderam o gênero feminino. As mulheres além de ser maioria, são também as mais assíduas, pontuais e muito mais disciplinadas para estudar. Certamente isso abarca um futuro de muitas conquistas para ambos os sexos, mas ainda são camuflados e colocados na indiferença os apelos. Por isso cantamos as Mulheres são demais.

Uma grande vitória, entre tantas e essa contempla toda a autonomia é o nosso Brasil elegendo uma brasileira para presidenta, a senhora Dilma. A maior ascensão já conquistada, não para mostrar quem é maior, mas para expressar definir que nessa terra amada somos iguais. No mercado de trabalho, no esporte, e na política as mulheres vão se misturando para se unificarem na certeza de um Brasil melhor. Essa é a letra da música se transformando em exercícios.

Liberdade a partir da igualdade

A liberdade que tanto se espera talvez esteja bem aos nossos olhos, sem precisar julgar religião, política, cultura por limitar muitas vezes essa liberdade, pois tais instituições são movidas por homens e nos servem de direcionamento, mas o próprio homem que se sente na competência superior não compreende que só o é junto a uma mulher, bem expressada na música.  Então a liberdade parte objetivamente da igualdade, não qualquer igualdade, mas a de gênero que por vez se encontra na própria igualdade. Apesar de a música mencionar apenas o sexo feminino, é possível falar de igualdade no momento em que assimilamos a liberdade feminina. Com isso as mulheres irão gritar suas opressões, e suas batalhas cada vez mais em pró de uma mudança ainda autônoma, e isso já começamos a ver. A mulher brasileira tem lutado ao longo de toda história, para conseguir seu espaço, mesmo vivendo numa sociedade paternalista, preconceituosa e discriminatória.

  1. Doce adolescência da inocência sem pudor
    Querem o mundo, não sabem esperar
    Têm a pressa de saber o que é o amor
    Alguém, uma vida.

A estrofe a cima concretiza o desejo de luta que vibra no sangue da mulher e mostra aspectos considerados na igualdade. Elas não podem mais esperar, pois não há tempo para mudar o mundo, apesar de a música ser escutada em todos os lugares, a igualdade de gênero ainda é uma utopia. Ainda nos debatemos em plena estruturação da modernidade as inúmeras desvantagens que desigualam o gênero. As formulações que se preponderam atualmente sobre direitos competentes à reprodução e de competência sexual resultam de um trabalhoso e complexo processo de movimentação política e elaboração conceitual, em torno dos temas do corpo, da sexualidade e da reprodução. Apesar de incendiar ideias em torno da mulher, tais questões são vistas como sendo o impasse de muitas delas, mesmo frente a uma sociedade ainda insensível aos apelos feminino. Deve ser posto um acento preciso, quando se fala de igualdade de gênero, na sexualidade, pois, muitas indiferenças surgem dessa particularidade. Não obstante as várias discriminações.

 

O tratamento que, historicamente, a sexualidade e a reprodução vêm recebendo tem sido opressivo para todos os seres humanos, e tem transitado por um caminho de particular barbárie no caso das mulheres, dos meninos e das meninas […]. O discurso sobre o corpo das mulheres foi sempre uma construção do outro. Recentemente, como os movimentos feministas, é que se pôde entender os discursos disciplinares do corpo e a conseqüente construção da natureza feminina com representações sociais organizadas pelos homens e introjetadas pelas mulheres […]. A sexualidade e a reprodução […], têm sido determinadas por numerosas variáveis econômicas, políticas, religiosas e culturais, e por isso o exercício da sexualidade responde como tendência, às formas como se administrou e organizou a legitimidade, ‘a normalidade’, a legalidade; assim como se excluiu e estigmatizou tudo aquilo que se distanciava ou transgredia o estabelecido pela norma (VASQUEZ, 2002, p. 04-05).

 

Muitos atributos contemplados pela letra da música são deturpados e ignorados por direitos e deveres masculinos. A igualdade de gênero será mais esclarecida quando o sistema assimilar que para ter igualdade precisa mostrar liberdade, e liberdade se mostra a través da igualdade.

A gigante que acorda chorando

Grandes apelos estão sendo feitos, e tantos já foram expressos por grupos, indivíduos e até assembleias. A letra da música faz atentar para uma pergunta inquietante: as mulheres obtiveram a sua autonomia? Segue então outro ponto de partida, a igualdade. Cataremos com o coração como os integrantes da banda Roupa Nova cantam? Parece que não ficou tão claro para a sociedade o apelo feito ao logo da história por guerreiras, que com toda força se privava nas cozinhas e leitos, só para lutarem com mais honra, a obediência, isso segundo o sexo masculino.

  1. Pelos trinta anos elas sabem onde pisar
    Suas cabeças já estão no lugar
    Dão um jeito de fazer acontecer
    E têm esperança

 

Em vez de assimilar a mensagem expressada pela mulher, as “competências” se fecham e usam “verdades” fundidas em mentiras para não ouvir mais uma vez os gritos femininos. Para ser menos técnico, algo bem próximo a nós acontece, por exemplo, no âmbito do trabalho se percebe que ao mesmo tempo em que lutam pela própria sobrevivência, pois querer viver dignamente, as mulheres acabam por “não viverem” mais: trabalham em vários lugares, e recebem muito pouco.

Na verdade, depois dos trinta anos, a expressão no rosto da mulher é a mesma de uma guerreira que incansavelmente lutou e que agora necessita dos verdadeiros méritos, não dados por ninguém, mas reconhecido por todos.

O modelo não implantar novidades e reconhecimentos sobre a mulher, também não é viável simplesmente depositar ideias acusativas, nas instituições de modo geral, por que o a lei que regem nossas condutas é institucional e também falha. Como na instituição religiosa sem mesmo entender que o plano é de salvar vidas e não de confundir cabeças. Algo tão sério, que envolve vida e morte, não pode ser tratado nem no âmbito do fanatismo religioso, nem na intransigência médica que não consegue dialogar com a diversidade do pensamento social, do qual o religioso também é constituinte.

O Brasil apesar de ser um estado laico, nele existe uma corrente de pensamento religiosa que se apregoa em muitos dos seus adeptos. No concernente ao aborto, devem-se evitar as afrontas e as tentativas de descredibilizar as apreciações contrárias. Os questionamentos devem ser éticos, antes de tudo. Mas criminalizar as mulheres que praticam o aborto fere direitos constitucionais á liberdade, privacidade, não discriminação, saúde e bem-estar, ao tempo em que se praticar aborto fere a essência natural da mulher, e a solução não é simplesmente lutar por direitos. E de quem seriam esses direitos? A mãe ou a criança? A sociedade deve reconhecer a competência ética das mulheres, para decidir sobre a sua sexualidade e reprodução sem coerção.

Todos têm direitos e deveres a cumprir; no caso das mulheres, a opção pela concepção e maternidade torna a contracepção ou aborto questão de autonomia dos seus direitos e até deveres em relação a sua escolha. Porém é também dever do Estado oferecer condições propícias a esse favorecimento. Do contrário as mulheres mais pobres sofrem de desumanidade na clandestinidade, e por medo, a humilhação, e maus tratos fazem parte dessa reação oriunda de falsas éticas criadas em meios a belas falácias.

  1. Mulheres pregam a comunhão…
    Mulheres lindas na gravidez…

O trecho da estrofe reluta especificamente a autonomia da mulher pelo menos na sua própria escolha de ser mãe. No nosso Brasil, o tema aborto pode até ser explorado, porém as mulheres são muito mais exploradas pela morte que incessantemente mata a dignidade, isso porque as condições precárias dificultam o tratamento materno e seguro. A escolha do aborto chega à última instância na vida de uma mulher, e mesmo não conhecendo os reais motivos, a questão agora se foca para dignidade da mulher como pessoa humana. Essa é uma questão ainda não clara pelas políticas públicas, que mesmo regendo ética, não rege a vida, logo não conhecem a ética.

As relações societárias das mulheres da zona rural, devido ao isolamento e à falta de recursos sociais e financeiros, são frágeis, estando segregadas social e espacialmente, tornando-as, assim, mais susceptíveis a sofrer atos de violência doméstica já que as leis não regem em alguns lugares. Além de ser desigual a violência é um ato desumano. Infelizmente muitas mulheres ainda se submetem a essa situação com intuito de salvar seus relacionamentos.

Segundo a Assembleia Geral das Nações Unidas, em 1993, citada por Dantas-Berger e Giffin (2005), a violência contra a mulher é qualquer ato de violência de gênero que resulte, ou tenha probabilidade de resultar, em prejuízo físico, sexual ou psicológico ou, ainda, sofrimento para as mulheres; inclui a ameaça de praticar tais atos, a coerção e a privação da liberdade, ocorrendo tanto em público quanto na vida privada.

A Lei Maria da Penha, no seu artigo 5º, considera violência no âmbito doméstico como aquela “compreendida no espaço de convívio permanente de pessoas, com ou sem vínculo familiar, inclusive as esporadicamente agregadas” (BRASIL, 2006). De acordo com Tuesta (1997), a violência de gênero no âmbito doméstico é um fenômeno extremamente complexo, que perpassa as classes sociais, os grupos étnico-raciais e as diferentes culturas de inúmeras famílias.

A invisibilidade da violência doméstica contra as mulheres na zona rural é favorecida pela distância entre as moradias, dificuldade de locomoção e falta de acesso a serviços e informação. Assim, apesar da existência da Lei Maria da Penha e companhias voltadas para o atendimento às mulheres vítimas de violência, na zona rural, praticamente são fantasgórico as ações do Estado contra a selvageria de gênero. Tudo isso só reforça o presente artigo a clicar a mesma tecla sobre o apelo gritante das mulheres.

 

  1. Depois que os anos passam
    Marcas na face mostram alegrias e tristezas
    Não tem volta, só lembranças.

 

 

 

 

 

 

CONCLUSÃO

O artigo não tratou de expor uma tese, ou um ponto de vista puramente individualista, mas buscou responder pela música da Banda Roupa Nova e a história sofrida da mulher em seus diversos períodos, que a construção igualdade de gênero só acontecerá se houver a autonomia da mulher.

No limiar das primeiras conquistas da mulher, conturbado e falacioso foram às propostas oferecidas. A autonomia referente à igualdade de gênero pareceu-se mostrar através da música apresentando os esforços femininos ao longo da história, uma proposta e realmente é o que fontes históricas confirmam, proposta essa que afirma, enquanto apenas o gênero masculino impedir a autonomia das mulheres não pode haver igualdade de gênero. As mulheres assumiram uma guerra sem imaginar a carência de autonomia nos tempos vindouros. Muitas são as questões que supostamente ficaram na simulação de projetos, em arquétipos ou protótipos machistas, porém o apelo gritante, como no deserto, continua. “Vale a pena ontem, hoje e amanhã, Enfim, são mulheres”. A luta não terminou.

Pudemos perceber que toda a letra da música foi contemplada no trabalho e que através das estrofes a história da mulher ia se concretizando. A própria letra da música por si só vai construindo a igualdade de gênero e em consonância com dados históricos realmente percebemos o quanto se evoluiu. A mulher não é mais uma figura descartada na sociedade, nem um ser qualquer, ela é o que diz a música, demais, e não só elas, mas todas elas. O artigo buscou levar ao leitor uma compreensão bem mais próxima a nossa realidade e de forma simples, partindo de uma música que foi produzida para não esquecermos quem são as mulheres.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


FERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

BRASIL. Leis, etc. Lei n. 11.340, de 7 de agosto de 2006. Dispõe sobre a criação de juizados de violência doméstica e familiar contra a mulher e dão outras providencias. Diário Oficial da União, Brasília, 08 ago. 2006. (Seção1:1).

BEAUVOIR, S. El segundo sexo. Buenos Aires, Siglo XX 1972.

DANTAS-BERGER, S. M.; GIFFIN, K. A violência nas relações de conjugalidade: invisibilidade e banalização da violência sexual? Cadernos de Saúde Pública, v. 21, n. 2, p. 417-425, mar./abr. 2005.

VASQUEZ, Roxana. Manifesto – campanha por uma convenção dos direitos sexuais e dos direitos reprodutivos. São Paulo: CLADEM-Brasil, 2002.

TUESTA, A. J. A. Gênero e violência no âmbito doméstico: a perspectiva dos profissionais de saúde. Rio de Janeiro: Escola Nacional de Saúde Pública/Fundação Oswaldo Cruz, 1997. Dissertação (Mestrado) – Fundação Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro.

NOVA, Roupa, banda. Música. Todas Elas.

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