MARIA, MÃE DE DEUS, MORREU OU ADORMECEU? (MANOEL MESSIAS)

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O dogma da Assunção de Maria, proclamado em 1950, não dirimiu a questão, afirmando que “a Imaculada Mãe de Deus, a sempre Virgem Maria, terminado o curso de sua vida terrestre, foi assunta em corpo e alma à glória celeste”

Grande são os questionamentos entre teólogos e cristãos católicos em torno da “Assunção” de Nossa Senhora, tal expressão vem da palavra latina que significa “levantar”. Antes de qualquer insatisfação, vos lembro: foi Deus que escolheu Maria como Mãe do Vivente, do Primogênito dentre os mortos. Então não é a minha e nem a sua mãe a escolhida, mas sim Maria e usando da razão eu quebraria os meus dentes caso minha boca fizesse ofensas a esta mulher. Costumo dizer “como poderia a Mãe Daquele que vive para sempre não ter parte na sua ressurreição, uma vez que participou da sua vida e da sua morte?”. Assim diz também o padre André: “Como poderia permanecer no sono da morte aquela que foi feita a aurora da Salvação, aquela que presenciou o raiar do novo dia e foi iluminada pela luz que não se apaga?!” E surgem outras questões a favor da assunção: “Como poderia jazer na sombra da morte, e ser aprisionada num túmulo, aquela que acolheu no seu seio o autor da vida e o vencedor da morte?”; e contra: “Se Jesus morreu, porque Maria iria ser privada da morte” e etc.. Mas afinal, Maria morreu de fato? Há, entre os católicos, controvérsias, porém a falta de conhecimento e aprofundamento são os fatores dessa controvérsia.

Aos que defendem que Maria foi elevada de corpo e alma, argumentam com sua “conceição imaculada”. Se a morte é conseqüência do pecado, Maria, sem pecado e sem sombra de pecado, não podia morrer. Maria é o modelo de todos os resgatados pelo Cristo através de sua morte e ressurreição. Aos que defendem que Maria morreu, elevam os seus argumentos aos méritos de Jesus. Tendo, ela se unido a Ele no Calvário, ter-se-ia, sem sombra de dúvida configurada a Ele na morte e na ressurreição. Uma mulher, sem pecado, mas que passou por dores, angústias, desconfortos, perseguição, também teria passado pela prova maior: a morte corporal. Sem que com isso se afirme que seu corpo sofreu a decomposição.

Há duas tradições: A primeira diz que o Apóstolo João teria migrado para Éfeso. Maria teria findado seus dias nesse lugar (não há documentos históricos que favoreçam essa tradição e as escavações arqueológicas). A segunda tradição faz Maria terminar sua jornada terrena em Jerusalém, no Monte Sion e ser sepultada. O texto passa a contar esses últimos dias, inclusive sua assunção ao céu. Se Maria concebeu Jesus aos 14 anos, deu à luz aos 15 (idade normal naquele tempo na Ásia Menor para casar) e Jesus morreu em torno dos 33 anos, Maria teria 50 anos ao morrer. Sabe-se que era a idade média de vida das mulheres naquele tempo e naquela região.

 

A última referência bíblica a respeito de Maria está nos Atos, ainda quando os Apóstolos estavam no Cenáculo, depois da Ascensão de Jesus: “Todos permaneciam unânimes na oração com algumas mulheres, Maria, Mãe de Jesus, e seus irmãos” (At 1,14).

Mas muito nos ajudam os padres do deserto: Basta citar são Tiago de Sarug (521), segundo o qual quando para Maria chegou “o tempo de caminhar pela via de todas as gerações”, ou seja, a via da morte, “o coro dos doze apóstolos” reuniu-se para enterrar “o corpo virginal da Bem-aventurada” (Discurso sobre a sepultura da santa Mãe de Deus, 87-99 em C. VONA, Lateranum 19 [1953], 188). São Modesto de Jerusalém (634), depois de ter falado amplamente da “beatíssima dormida da gloriosíssima Mãe de Deus”, conclui o seu “elogio” exaltando a intervenção prodigiosa de Cristo que “a ressuscitou do sepulcro” para a receber consigo na glória (Enc, in dormitionem Deiparae semperque Virginis Mariae, nn. 7 e 14; PG 86 bis 3293; 3311).

São João Damasceno (704), por sua vez, pergunta: “Como é possível que aquela que no parto ultrapassou todos os limites da natureza, agora se submeta às leis desta e seu corpo imaculado se sujeite à morte?“ E responde: “Certamente era necessário que a parte mortal fosse deposta para se revestir de imortalidade, porque nem o Senhor da natureza rejeitou a experiência da morte. Com efeito, Ele morre segundo a carne e com a morte destrói a morte, à corrupção concede a incorruptilidade e o morrer faz d’Ele nascente da ressurreição” (Panegírico sobre a dormida da Mãe de Deus, 10: SC 80,107).

É verdade que na Revelação a morte se apresenta como castigo do pecado. Todavia, o fato de a igreja proclamar Maria liberta do pecado original por singular privilégio divino não induz a concluir que Ela recebeu também a imortalidade corporal. A mãe não é superior ao Filho, que assumiu a morte, dando-lhe novo significado e transformando-a em instrumento de salvação. Empenhada na obra redentora e associada à oferta salvífica de Cristo, Maria pôde compartilhar o sofrimento e a morte em vista da redenção da humanidade. Também para Ela vale quanto Severo de Antioquia afirma a propósito de Cristo: “Sem uma morte preliminar, como poderia ter lugar a ressurreição?” (Antijulianistica, Beirute 1931, 194 s.). Para ser partícipe da ressurreição de Cristo Maria devia compartilhar antes de mais a Sua morte, portanto ELA MORREU.

NÃO FIQUEM TRISTES, POIS DORMISSÃO ESTÁ NA MESMA RAIZ QUE MORTE (grego), LOGO ESTAVAMOS FALANDO DA MESMA COISA;

MAE DE DEUS ROGAI POR NÓS.

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A POLÍTICA É O PÃO NOSSO DE CADA DIA

Relações Públicas Manoel Messias da Silva

28/06/16

A melhor forma de expressar nossa indignação é mostrar a nossa dignidade e isso não é apenas deixar de votar em um ou outro candidato. Particularmente penso que esta seja a forma menos eficiente. Não ser responsável pela política. Quando deixamos de votar, estamos assinando uma procuração em branco, deixando de tentar eleger alguém que tenha uma visão aprofundada sobre problemas essenciais e que seja a encarnação de um projeto coletivo. Esse me parece ser o grande problema da política contemporânea, principalmente das realidades que emergiram do mando dos coronéis. Muitos pensam assim: Quando pensamos em votar, votamos em uma pessoa e não em um projeto, ao menos em uma pessoa que tenha projetos. Porém, essa ideia tem a concepção de que legislar uma cidade cabe unicamente ao representante que confiei o meu voto, aquele político, aquela figura. É uma atitude típica de Pilatos. Votei (lavei minhas mãos) agora resolvam por mim. De resto, tudo o que acontecer não é culpa minha, pois votei em quem tinha que ser votado para melhorar a cidade. Assim não estamos nos alimentando, mas apenas sugando a figura política.

Votar em alguém é importante. Muitos morreram para que tivéssemos esse direito garantido. Muitos desapareceram nos porões da ditadura para que hoje deixássemos de votar, só porque alguns políticos (sim, pois existem políticos sérios, honestos e com interesses essencialmente republicanos) fazem da política uma questão privada? Obviamente que não. A mídia, que cotidianamente apresenta casos de corrupção (casos reais, diga-se) tem interesse em demonstrar apenas isso para esvaziar a política e resumir a mesma ao que se faz no parlamento. Política não se resume aos políticos e suas ações, a política é nossa alimentação de cada dia. Nós fazemos políticas desde o momento em que acordamos e vamos dormir. Então, se vocês estão descontentes com a estrutura e a política que por aí se desenvolve e nos é apresentada, indignem-se sim, gritem sim, proteste sim, mas votem!!! Mas vote em um projeto de sociedade e não em alguém que individualmente diz que vai resolver o problema da cidade. O problema da cidade se resolve quando todos colaboram.

A política é sim o nosso alimento, todos nós fazemos política. Cada partido tem um ideal comum que sempre resume o bem para o outro, apenas as prioridades são escolhidas. As eleições são esse limite de nossas escolhas e assim o nosso voto faz contribuições sinceras para essas escolhas.

EU CRESCI, E VOCÊ?

1-59
Não há, nesse mundo, coisa melhor do que olhar pra trás e ver a quantidade de coisas pelas quais você passou e superou. É bom demais parar dez minutos pra pensar no quanto você evoluiu e cresceu mesmo, aprendendo ou não, o quanto você foi desapegando de coisas que dizia não viver sem, que dizia não ter forças para superar. Ver o quanto você mudou de opinião, que coisas que você jurou jamais fazer, hoje você faz e nem percebe, parece que não tem o mesmo sentido ou um forte sentido. É incrível notar que algumas pessoas que, anos atrás te juraram companhia e fidelidade, ainda estão do seu lado, e é incrivelmente estranho como outras saíram da sua vida e você nem viu, nem mesmo as percebeu. A gente vai desapegando tão lentamente de algumas coisas que quando vê, já era. É tarde demais. Quando vê, você já ama outra cor, outro cheiro, outras músicas e tem outros hábitos. De repente seu filme favorito não é mais o mesmo que você dividia com aquela pessoa, e nem sequer do mesmo gênero ou coisa assim. Quando você olha ao redor, tem gente de menos, e que aquelas que você julgava ‘amigos’, hoje, estão em caminhos totalmente diferentes do seu. Você aprende que as decepções são reais, mas não desmerecem as pessoas, pois elas s[o te dizem o quanto você se importava. Quando percebe, seu ‘bom dia’ corriqueiro pertence a outros, já não te faz mais lembrar um “bom dia” tão esperado por alguém, mas também não te faz tanta recordação. Percebe que está sobrando espaço para companhias e que seu coração ficou grande demais pra pequena quantidade de pessoas que restam na sua vida. Percebe que não importa o tempo, a distância ou o grau de importância que você dá para alguém, simplesmente, ela continua com você, mas as pessoas, elas vão embora. Um velório passa a ser menos triste que um pensamento desse, mas te torna mais vivo. Quando você para pra pensar, nota que qualquer motivo, por menor que seja, é sinônimo de juntar a turma e sair pra beber, na tentativa de preencher algum vazio aí dentro. Percebe que não importa quantas piadas você faz por dia pra tentar se alegrar ou se distrair, à noite, você continua sendo ridiculamente sozinha. Percebe também que o colo da sua mãe ficou pequeno demais pra te confortar, e que seus problemas, agora são ‘problemas de gente grande’ e que o pequeno agora é você. Você olha em volta e, por segundos, vê que quase tudo tomou outra forma, que muita coisa que era divertido, pra você, ficou chato e tantas coisas te faziam rir, hoje simplesmente não causa mais nada. Mas ainda é gratificante comparar o ontem com o hoje e ver o quanto cresceu e nem notou, o quanto o tempo fez bem para você e para tudo aquilo que está ao seu redor. E não tem outro jeito, o tempo vai continuar te fazendo bem, porque crescer é infinito. E que não importa se você é adepto ou não às mudanças, muita coisa vai mudar. Muita coisa já mudou. Eu cresci e você?
— Manoel Messias Meditando o texto- Motivando.

SANTÍSSIMA TRINDADE

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Manoel Messias da Silva-4º Teologia)

Sobre a identidade essencial do Pai, do Filho e do Espírito Santo, nós, débeis e rudes, sem usarmos de cavilações e não para simplesmente nos opormos a argumentos humanos, mas com testemunhos extraídos da Escritura e acessíveis a todos, já dissertamos, ao menos parcialmente, de maneira inteligível aos fiéis e apta para refutar os infiéis levianos (Santo Epifânio-403).

 

O mistério da Santíssima Trindade é o mistério central da fé e da vida cristã (CIC[1] 234). Na vida da Igreja tudo começa e acaba com a invocação às três divinas Pessoas. Por tanto, a Trindade é Una e as pessoas divinas são realmente distintas entre si e são relativas umas às outras. “Deus é único, mas não solitário”. É lógico que assim seja, porque a própria Igreja é uma comunhão de vida com o Pai o Filho e o Espírito Santo; e toda a Criação tem a sua origem e o seu fim na Santíssima Trindade. Compreende-se assim que a oração e o gesto mais repetido pela Igreja seja o Sinal da Cruz. Domingo de Pentecostes recebemos o Espírito Santo, pois a sua Missão, enviado pelo Pai em nome do Filho e pelo Filho “de junto do Pai” (Jo 15,26), revela que o Espírito é com eles o mesmo Deus único (CIC 263). Jesus começa por dizer aos discípulos que há muitas outras coisas que eles não podem compreender de momento (vers. 12). Será o “Espírito da verdade” que guiará os discípulos para a verdade, que comunicará tudo o que ouvir a Jesus e que interpretará o que está para vir (Jo 16, 13).

Celebramos hoje a solenidade da Santíssima Trindade e as leituras retocam a liturgia: Deus Pai e Filho e Espírito Santo, Festa de Deus, do centro da nossa fé. Quando se pensa na Trindade, vem em mente o aspecto do mistério: são Três e são Um, um só Deus em três Pessoas. Na realidade, Deus não pode ser outro que um mistério para nós na sua grandeza e, todavia, Ele se revelou. Podemos conhecê-Lo no Seu Filho e, assim também, conhecer o Pai e o Espírito Santo. Em Romanos cap. 5 O Espírito Santo não é autônomo; por isso a sua ação está em perfeita coerência e continuidade com a obra de Jesus. «Anunciará o que está para vir» não significa uma previsão dos acontecimentos futuros, mas antes o sentido do futuro e a nova ordem das coisas resultante da obra redentora de Jesus.

O trecho de Provérbios 8, 22-31, apresenta a sabedoria divina poeticamente personificada. É ela que se apresenta a si mesma, como um «arquiteto» (v. 30) ao lado de Deus, que Lhe fornece o projeto da maravilhosa obra da criação do universo. Os Padres da Igreja, baseados na apresentação que o Novo Testamento faz de Cristo como Sabedoria de Deus (Mt 11, 19; Lc 11, 49; cf. Col 1, 16-17; Jo 1, 1-3; 6, 35, etc.), vêem nesta passagem de provérbios uma alusão à Segunda Pessoa da SS. Trindade, o Verbo de Deus. De fato, a Sabedoria é apresentada como uma pessoa distinta, mas sem que seja uma criatura, pois existe desde sempre, antes da criação (vv. 24-26). Já dizia Santo Hilário de Poitiers “Ignora a sabedoria quem a Deus ignora”. E com a sabedoria é o Cristo, está fora da sabedoria quem ignora o Cristo. E Cristo não é apenas homem, pois se fosse, porque João Batista dava testemunho dizendo “aquele que vem após mim foi feito antes de mim porque existia antes de mim (Jo 1, 30), ao passo que Cristo, como homem, tendo nascido depois de João, não poderia ser-lhe anterior, só o podendo ser enquanto Deus? (Novaciano -257).

Em Jesus o ser humano encontra o filho único e encarnado do Pai e o mediador escatológico da salvação. Nele Deus faz a si mesmo imediatamente presente. No contexto da história de Jesus, Deus revela o Espírito do Pai e do filho como o dom escatológico em que Ele oferece a si mesmo. Desse modo, tampouco o Espírito é uma força ou uma eficácia apessoal de Deus ou uma simples descrição metafórica da ação divina. O Espírito, que explora as profundezas da divindade (1Cor 2,10), se situa na unidade e na diferença da relação com o Pai.

[1] Catecismo da Igreja Católica

ELE FEZ MEU RELÓGIO DESACELERAR

ELE FEZ MEU RELÓGIO DESACELERAR
(Manoel Messias)
Parecia que o meu relógio estava diminuindo sua velocidade, um minuto pareciam cinco, mas desde que cheguei ali não conseguia pensar em outra coisa a não ser nessa noite, não queria planejar nada, só queria tirar o maior proveito da noite que por vezes, me parecia, também fugaz. Minha ansiedade agitava meu corpo, me deixava inquieto. Entrei no local marcado, ele já estava esperando na mesa, com os braços, aparentemente, batendo na mesa, como que nervoso. Olhou pra mim e sorrio pacientemente, aquilo me atingiu de uma forma imensa, sua imagem na minha frente como que um espelho, sem ser algum retrato jogado por redes sociais, era amedrontador e reconfortante ao mesmo tempo e eu olhando para o meu relógio desacelerado me pedindo mais envolvimento. Alguma coisa em mim estava me deixando estranho, nunca tinha passado por tal experiência, tão novo e tão bom, realmente algo tinha mudado em mim desde o momento que pisei naquele local daquela noite, e só faziam – se quinze minutos era muito. O máximo que consegui fazer foi cumprimentá-lo com um aperto de mão e um quase não dito – Tudo bem ?- que saiu pior que eu imaginei e tanto que ensaiei. Ao contrário de quando cheguei agora o relógio aumentava sua velocidade, quando vi já tinham se passado uma hora, duas, com tanta coisa ainda pra conversarmos, falávamos sobre tanta coisa, novos assuntos emergiam e se emendavam sobre tantas ideias. Seu charme só crescia, suas risadas sem motivos, seu olhar sem perspicácia era encantador. Adorava reparar os detalhes de suas feições, meus holofotes não tinham outro foco, mil coisas passavam por minha cabeça, mas mesmo assim não me distanciava da nossa conversa. Reparei todos seus detalhes, o que conseguia notar, toda sua forma de expressão. A noite foi chegando ao fim, nossa despedida foi diferente, nada de aperto de mão, foi um aperto de corpos, um abraço acolhedor, me senti uma criança, de uma carência incabível, mais uma vez me senti estranho, perdido, mas acolhido. Chegou a hora de ir embora, ele nem imaginava como gostaria de continuar ali, no caminho de volta não parei um segundo de pensar em toda essa noite, estava me sentindo bem, porém não sabia o que esperar disso tudo, não consegui compreender tal sentimento. Quando cheguei em casa fui tomar um banho, pensar um pouco, deitei na cama querendo saber o que ele achou disso tudo, adormeci pensando nele, sonhei com seu abraço. E o meu relógio parou.
— Manoel Messias Quando escutar Breath of life lembrarei de ti

Exortação “A alegria do amor” Amoris Laetitia (resumo de Manoel Messias)

Exortação “A alegria do amor” Amoris Laetitia

(Papa Francisco)

 

Manoel Messias da Silva

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Exposição do Papa: “No desenvolvimento do texto, começarei por uma abertura inspirada na Sagrada Escritura, que lhe dê o tom adequado. A partir disso, considerarei a situação atual das famílias, para manter os pés no chão. Depois lembrarei alguns elementos essenciais da doutrina da Igreja sobre o matrimônio e a família, seguindo-se os dois capítulos centrais, dedicados ao amor. Em seguida destacarei alguns caminhos pastorais que nos levem a construir famílias sólidas e fecundas segundo o plano de Deus, e dedicarei um capítulo à educação dos filhos. Depois deter-me-ei em um convite à misericórdia e ao discernimento pastoral perante situações que não correspondem plenamente ao que o Senhor nos propõe; e, finalmente, traçarei breves linhas de espiritualidade familiar” (n. 6).

Divisão: 325 parágrafos distribuídos em nove partes: À luz da Palavra; A realidade e os desafios da família; Olhar fixo em Jesus: A vocação da família; O amor no matrimônio; O amor que se torna fecundo; Algumas perspectivas familiares; Reforçar a educação dos filhos; Acompanhar, discernir e integrar a familiaridade e espiritualidade conjugal e familiar. Encerra-se com uma Oração à Sagrada Família

  • Capítulo 1: À luz da Palavra

Foco na Palavra, pois a bíblia está cheia do completo de família, nada melhor que começar por ela: Salmo 128, característico da liturgia nupcial hebraica, assim como da cristã. A Bíblia ”aparece cheia de famílias, gerações, histórias de amor e de crises familiares” (AL 8). A Sagrada Escritura está repleta de histórias de famílias com suas alegrias, belezas e dificuldades, sem que essa instituição esmoreça. Muito aparece também a expressão “Tu e tua esposa”, ou seja, o homem e a mulher (por exemplo, Mt 19,9 que remete a Gn 2,24 e 1,27) a terem seus filhos e filhas como brotos de oliveira ao redor de tua mesa (cf. Sl 128/127,3); as primeiras comunidades cristãs se reúnem em casas, local da convivência familiar por excelência.

  • Capítulo 2: “A realidade e os desafios das famílias”

Foco nos desafios. Ainda no chão bíblico, o Papa considera a situação atual das famílias, mantendo ”os pés assentes na terra” (AL 6) como se pode ler na Exortação. A humildade do realismo ajuda a não apresentar ”um ideal teológico do matrimônio demasiado abstrato, construído quase artificialmente, distante da situação concreta e das possibilidades efetivas das famílias tais como são” (AL 36). O matrimônio é “um caminho dinâmico de crescimento e realização”. “Somos chamados a formar as consciências, não a pretender substituí-las” (AL37) refere o Papa Francisco no seu texto, pois, Jesus propunha um ideal exigente, mas ”não perdia jamais a proximidade compassiva às pessoas frágeis como a samaritana ou a mulher adúltera” (AL 38).

  • Capítulo 3: “O olhar fixo em Jesus: a vocação da família”

Foco na vocação. Elementos essenciais do ensinamento da Igreja acerca do matrimônio e da família, nada novo e nem distante do ensinamento. Em 30 parágrafos ilustra a vocação à família de acordo com o Evangelho, assim como ela foi recebida pela Igreja ao longo do tempo, sobretudo quanto ao tema da indissolubilidade, da sacramentalidade do matrimônio, da transmissão da vida e da educação dos filhos. Citações da Gaudium et spes, da Humanae vitae, da Familiaris consortio de João Paulo II não são propositais, mas se emblema o ensinamento da Igreja.

O Papa lembra também um princípio geral importante: “Saibam os pastores que, por amor à verdade, estão obrigados a discernir bem as situações” (Familiaris consortio, 84). O grau de responsabilidade não é igual em todos os casos, e podem existir fatores que limitem uma capacidade de decisão. “Por isso, ao mesmo tempo em que se exprime com clareza a doutrina, há que evitar juízos que não tenham em conta a complexidade das diferentes situações e é preciso estar atentos ao modo como as pessoas vivem e sofrem por causa da sua condição” (AL 79).

Não resumir o matrimônio na procriação, mas na união (aspecto unitivo), na preparação aos jovens casais para o matrimônio sob o olhar exigente, porém, ao mesmo tempo, compassivo de Jesus, a educação para se evitar o descarte (relaciona-se e separa-se com facilidade ímpar), o medo do compromisso com o futuro parece dizer aos jovens: “viva a vida não assuma compromissos familiares”, a pornografia faz mal, pois distorce o verdadeiro amor, a queda das natalidades ameaça certos países ou povos na economia e na própria identidade, há enfraquecimento da prática religiosa, falta de habitação digna, filhos nascidos de relações transitórias, abuso sexual de crianças, famílias migrantes ou com membros deficientes, idosos ou que vivem na miséria chocam nossos tempos. Assome-se a isso a falta de educação, a dependência química, a poligamia, o menosprezo ainda existente à mulher, a ideologia de gênero a negar a identidade sexual: não haveria mais homem ou mulher, mas apenas um ser humano neutro. Apesar de tudo isso, demos graças a Deus pelas famílias que vivem no amor verdadeiro e fiel (cf. n. 31-57).

  • Capítulo 4: “O amor no matrimónio

O “hino ao amor” (1Cor 13, 4-7) faz a ilustração belíssima do amor ao matrimônio. De caráter quotidiano do amor que se opõe a todos os idealismos: ”não se deve atirar para cima de duas pessoas limitadas o peso tremendo de ter que reproduzir perfeitamente a união que existe entre Cristo e a sua Igreja, porque o matrimónio como sinal implica um processo dinâmico, que avança gradualmente com a progressiva integração dos dons de Deus” (AL 122). Aqui é feita uma reflexão sobre o amor ao longo da vida e da sua transformação. Pode-se ler no documento: “Não é possível prometer que teremos os mesmos sentimentos durante a vida inteira; mas podemos ter um projeto comum estável, comprometer-nos a amar-nos e a viver unidos até que a morte nos separe, e viver sempre uma rica intimidade” (AL 163). Penetrando na essência do Matrimônio, diz-se que ele deve “aperfeiçoar o amor dos cônjuges”, para isso são apresentadas alguns pontos essenciais extraídos da Carta de Paulo aos Coríntios (13,4-7): paciência, atitude de serviço, cura da inveja, combater o orgulho e a arrogância, ser amável, desprender-se de si mesmo, não guardar violência interior, perdoar, alegrar-se com os outros; desculpar-se, confiar, esperar, suportar-se

  • Capítulo 5: “O amor que se torna fecundo”

O foco é sobre fecundidade do amor, a forma do acolher de uma nova vida, da espera própria da gravidez, do amor de mãe e de pai. Mas também da fecundidade alargada, da adoção, do acolhimento do contributo das famílias para a promoção de uma “cultura do encontro”, da vida na família em sentido amplo, com a presença de tios, primos, parentes dos parentes, amigos. A “Amoris laetitia” não toma em consideração a família ”mononuclear”, mas está bem consciente da família como rede de relações alargadas. A própria mística do sacramento do matrimónio tem um profundo caráter social (cf. AL 186). E no âmbito desta dimensão social, o Papa sublinha em particular tanto o papel específico da relação entre jovens e idosos, como a relação entre irmãos como aprendizagem de crescimento na relação com os outros.

  • Capítulo 6: “Algumas perspectivas pastorais”

O foco é sobre algumas vias pastorais que orientam para a edificação de famílias sólidas e fecundas de acordo com o plano de Deus. Em particular, o Papa observa que ”os ministros ordenados carecem, habitualmente, de formação adequada para tratar dos complexos problemas atuais das famílias” (AL 202). Se, por um lado, é necessário melhorar a formação psico-afetiva dos seminaristas e envolver mais a família na formação para o ministério (cf. AL 203), por outro ”pode ser útil também a experiência da longa tradição oriental dos sacerdotes casados” (AL 202).

A preparação para o matrimónio e o acompanhamento dos esposos nos primeiros anos da vida matrimonial deve ter uma maior atenção (incluindo o tema da paternidade responsável), mas também em algumas situações complexas e, em particular, nas crises, sabendo que ”cada crise esconde uma boa notícia, que é preciso saber escutar, afinando os ouvidos do coração” (AL 232). Pontos Pastorais: O anúncio do Evangelho da família, como célula-mãe da sociedade, a formação seminarística e laical com vistas ao apreço familiar em suas alegrias e agruras, a valorização pelas Igrejas locais dos “Cursos de preparação para o Matrimônio”, bem como a digna organização da celebração do Sacramento com leituras bíblicas próprias e insistência de que aquele é um compromisso a durar a vida inteira e não apenas naquele momento de tensão e luzes, filmagens, convidados etc.

  • Capítulo 7: “Reforçar a educação dos filhos”

Foco na à educação dos filhos: formação ética, o valor da sanção como estímulo, o realismo paciente, a educação sexual, a transmissão da fé e, mais em geral, a vida familiar como contexto educativo. É ressaltado pelo Santo Padre que “o que interessa acima de tudo é gerar no filho, com muito amor, processos de amadurecimento da sua liberdade, de preparação, de crescimento integral, de cultivo da autêntica autonomia” (AL 261).

A secção dedicada à educação sexual intitula-se muito expressivamente: «Sim à educação sexual». Sustenta-se a sua necessidade e formula-se a interrogação de saber ”se as nossas instituições educativas assumiram este desafio (…) num tempo em que se tende a banalizar e empobrecer a sexualidade”. A educação sexual deve ser realizada ”no contexto duma educação para o amor, para a doação mútua” (AL 280) – lê-se na Exortação. É feita uma advertência em relação à expressão ”sexo seguro”, pois transmite ”uma atitude negativa a respeito da finalidade procriadora natural da sexualidade, como se um possível filho fosse um inimigo de que é preciso proteger-se. Deste modo promove-se a agressividade narcisista, em vez do acolhimento”. (AL 283).

  • Capítulo 8: “Acompanhar, discernir e integrar a fragilidade”

Convite à misericórdia e ao discernimento pastoral diante de situações que não correspondem plenamente ao que o Senhor propõe. O Papa usa aqui três verbos muito importantes: ”acompanhar, discernir e integrar”, os quais são fundamentais para responder a situações de fragilidade, complexas ou irregulares. Em seguida, apresenta a necessária gradualidade na pastoral, a importância do discernimento, as normas e circunstâncias atenuantes no discernimento pastoral e, por fim, aquela que é por ele definida como a ”lógica da misericórdia pastoral”. As situações ditas de irregulares devem ter um discernimento pessoal e pastoral e – segundo a Exortação –  “os batizados que se divorciaram e voltaram a casar civilmente devem ser mais integrados na comunidade cristã sob as diferentes formas possíveis”.

Em particular, o Santo Padre afirma numa nota de pé de página que “em certos casos poderá existir também a ajuda dos sacramentos”, recordando que o confessionário não deve ser uma sala de tortura e que a Eucaristia “não é um prêmio para os perfeitos, mas um alimento para os débeis”. Mais em geral, o Papa profere uma afirmação extremamente importante para que se compreenda a orientação e o sentido da Exortação: ”é compreensível que não se devia esperar do Sínodo ou desta Exortação uma nova normativa geral de tipo canônico, aplicável a todos os casos. É possível apenas um novo encorajamento a um responsável discernimento pessoal e pastoral dos casos particulares, que deveria reconhecer: uma vez que “o grau de responsabilidade não é igual em todos os casos, as consequências ou efeitos duma norma não devem necessariamente ser sempre os mesmos” (AL 300).

O Papa desenvolve em profundidade as exigências e características do caminho de acompanhamento e discernimento em diálogo profundo entre fiéis e pastores. A este propósito, faz apelo à reflexão da Igreja ”sobre os condicionamentos e as circunstâncias atenuantes” no que respeita à imputabilidade das ações e, apoiando-se em S. Tomás de Aquino, detém-se na relação entre «as normas e o discernimento», afirmando: ”É verdade que as normas gerais apresentam um bem que nunca se deve ignorar nem descuidar, mas, na sua formulação, não podem abarcar absolutamente todas as situações particulares. Ao mesmo tempo é preciso afirmar que, precisamente por esta razão, aquilo que faz parte dum discernimento prático duma situação particular não pode ser elevado à categoria de norma” (AL 304).

Espaço ainda neste capítulo para a lógica da misericórdia pastoral e para o convite do Papa Francisco nas suas palavras finais: “Convido os fiéis, que vivem situações complexas, a aproximarem-se com confiança para falar com os seus pastores ou com leigos que vivem entregues ao Senhor. Nem sempre encontrarão neles uma confirmação das próprias ideias ou desejos, mas seguramente receberão uma luz que lhes permita compreender melhor o que está a acontecer e poderão descobrir um caminho de amadurecimento pessoal. E convido os pastores a escutar, com carinho e serenidade, com o desejo sincero de entrar no coração do drama das pessoas e compreender o seu ponto de vista, para ajudá-las a viver melhor e reconhecer o seu lugar na Igreja” (AL 312).

  • Capítulo 9: “Espiritualidade conjugal e familiar”

Foco na espiritualidade conjugal e familiar, ”feita de milhares de gestos reais e concretos” (AL 315). Diz-se com clareza que ”aqueles que têm desejos espirituais profundos não devem sentir que a família os afasta do crescimento na vida do Espírito, mas é um percurso de que o Senhor Se serve para os levar às alturas da união mística” (AL 316). Tudo, ”os momentos de alegria, o descanso ou a festa, e mesmo a sexualidade são sentidos como uma participação na vida plena da sua Ressurreição” (AL 317).

No parágrafo conclusivo, o Papa afirma: ”Nenhuma família é uma realidade perfeita e confecionada duma vez para sempre, mas requer um progressivo amadurecimento da sua capacidade de amar. (…). Todos somos chamados a manter viva a tensão para algo mais além de nós mesmos e dos nossos limites, e cada família deve viver neste estímulo constante. Avancemos, famílias; continuemos a caminhar! (…). Não percamos a esperança por causa dos nossos limites, mas também não renunciemos a procurar a plenitude de amor e comunhão que nos foi prometida” (AL 325).

Segundo Dom Orani Tempesta, este último capítulo possui grande relevância, pois trata de algo favorável à Espiritualidade conjugal e familiar. Destaca Francisco, à luz do Concílio Vaticano II, que a Santíssima Trindade habita não só em cada pessoa, mas também na família, de modo que a vida familiar bem vivida é caminho de santificação (n. 316), na oração comum e diária, ainda que breve, entre os cônjuges e com os filhos à luz do Cristo Ressuscitado a fim de que na própria realidade familiar resplandeça a luz pascal. Esse ponto alto da oração na vida matrimonial é a Eucaristia, a nova e eterna aliança a lembrar ao casal o compromisso de vida de um para com o outro até que a morte os separe. Desse modo, uma testemunha Deus ao outro e são como que pastores da fé a os seus filhos e filhas. Todos colocados sob a proteção da Sagrada Família de Nazaré (cf. n. 313-325).

 

Leia na integra: Amoris Laetitia

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